Estrategista e comunista russo fala em nova ordem global.
MOSCOU — O estrategista geopolítico russo Andrew Korybko(autor do livro Guerras Hibridas e que as mapeia semanalmente) detalhou, em uma série de artigos recentes publicados no portal Voice of East, uma reestruturação profunda da estratégia de defesa dos Estados Unidos e da OTAN para 2026, visando consolidar o controle sobre as Américas enquanto pressiona a Europa por autonomia militar. Segundo as teses de Korybko, a administração Trump implementa a doutrina "NATO 3.0" e o conceito de "Grande América do Norte", movimentos que o analista classifica como uma tentativa de redesenhar perímetros de segurança globais. O objetivo central seria garantir a retaguarda americana no Hemisfério Ocidental para permitir a projeção de força contra potências da Eurásia e do "Sul Global".
A nova arquitetura militar, denominada por autoridades americanas como "NATO 3.0", exige que os aliados europeus assumam a responsabilidade primária pela defesa do continente. Korybko destaca o "Ultimato Colby", referindo-se às exigências do Subsecretário de Guerra para Políticas, Elbridge Colby, para que a Europa acelere sua base industrial de defesa. Analiticamente, essa pressão funciona como um mecanismo de Guerra Híbrida: ao ameaçar retirar o suporte do Artigo 5 de países "dissidentes" — o modelo pay-to-play —, Washington utiliza a insegurança europeia para forçar uma padronização militar que beneficia a indústria bélica americana, enquanto redireciona seus próprios recursos para o Indo-Pacífico.
No plano hemisférico, o conceito de "Grande América do Norte" estende a influência direta de Washington da Groenlândia ao Canal do Panamá. O analista aponta que essa visão apaga a noção de "Sul Global" na região, reclassificando nações soberanas como componentes do perímetro de segurança dos EUA. Trata-se de uma aplicação moderna da Doutrina Monroe que, sob a ótica crítica, ignora a autonomia de Estados como Colômbia e Costa Rica. Essa narrativa russa busca, estrategicamente, alimentar o sentimento antiamericano na América Latina, apresentando a Rússia e o BRICS como alternativas de equilíbrio de poder diante do que Korybko descreve como "controle coercitivo".
No Leste Europeu, Korybko sustenta que o governo ucraniano utiliza táticas de desinformação para sabotar negociações entre Rússia e EUA. Ele cita o recente episódio em que a Estônia refutou alegações de Volodymyr Zelensky sobre uma iminente invasão russa aos Estados Bálticos. Para o estrategista, Zelensky atua como um vetor de "alarmismo" para manter o fluxo de ajuda financeira. Simultaneamente, a Rússia iniciou uma contraofensiva de "Guerra de Memória" contra a Polônia, utilizando exposições históricas provocativas para minar a influência polonesa sobre bielorrussos e ucranianos, evidenciando como o Kremlin utiliza o revisionismo histórico como ferramenta de desestabilização política.
A análise de Korybko sugere ainda que o governo Biden e, posteriormente, o de Trump, mantêm uma linha de expansão ideológica que disfarça interesses econômicos sob o manto da segurança nacional. Ao reclassificar o Golfo do México como "Golfo da América", os EUA sinalizariam uma apropriação de recursos naturais. Contudo, o analista alerta para o risco de "sobre-extensão" (overstretch), argumentando que o envolvimento simultâneo no Oriente Médio e a pressão sobre a fronteira russa podem colapsar a capacidade logística americana, uma narrativa recorrente na propaganda russa para projetar fraqueza no Ocidente.
Por fim, a retórica russa, vocalizada por figuras como Dmitry Medvedev, de listar instalações europeias de drones como alvos legítimos, é interpretada por Korybko não como uma intenção real de ataque — o que geraria a Terceira Guerra Mundial —, mas como uma operação psicológica. O objetivo seria recrutar "sabotadores" locais e incitar movimentos pacifistas na Europa para paralisar a produção bélica pró-Ucrânia. Essa tática de manipulação visa transferir o custo do conflito para dentro das sociedades ocidentais, desgastando o suporte público à guerra através do medo e da instabilidade interna.
Desdobramentos da Reestruturação Global (Projeção 2026)
| Região | Conceito-Chave | Objetivo Estratégico | Risco de Manipulação/Guerra Híbrida |
| Américas | Grande América do Norte | Consolidar recursos e eliminar influência do BRICS. | Neo-Monroeismo: Erosão da soberania latina. |
| Europa | NATO 3.0 | Transferir custos de defesa para aliados (Pay-to-play). | Desestabilização da unidade da UE por pressão financeira. |
| Bielorrússia | Crise de Fronteira | Provocar Lukashenko para desviar tropas russas do Donbass. | Narrativa de "invasão iminente" para justificar pré-empção. |
| Polônia | Guerra de Memória | Reviver crimes históricos (Katyn) para isolar Varsóvia. | Uso da história para criar clivagens étnicas regionais. |
| Ásia Central | Integração Eurasiana | Blindar o "Coração da Terra" contra sanções ocidentais. | Propaganda de "inevitabilidade" da vitória russa. |

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